O Espírito do Natal!

Colunistas Geral

Guilherme havia perdido o espírito de Natal. Não achava graça nas festividades e se desligava de tudo que estivesse relacionado a esta ocasião. Isso era algo que ele trazia desde criança. Foi criado num lar que tradicionalmente se montava a árvore, tinha entrega dos presentes e uma ceia entre os membros da sua família.
Quando estava com seus doze anos, algo aconteceu e o Natal nunca mais foi o mesmo na sua casa. Naquele ano, sua mãe partiu repentinamente e ele e seus irmãos se sentiram abandonados. Guilherme levou isso para a vida adulta e não era algo que trazia aquecimento ao seu coração. Seus irmãos tocaram a vida, a família dele nem mais se reunia.
Agora, mais uma véspera de Natal, Guilherme já sabia o que iria fazer: se recolher em casa, nem mandar cumprimentos aos amigos e família. Foi ao mercado e não buscou nada que fosse relativo ao Natal. Iria assar uma carne e assistir a uns filmes.
Na saída com suas sacolas do mercado lotado, estava bem cansado e, nisso, uma senhora o abordou e contou sua história. Mesmo sem muita paciência, ficou ali escutando aquela mulher.
E quando ela falou algo que mexeu com o emocional de Guilherme. Ela disse que naquele ano sua mãe tinha falecido de repente. Também seu companheiro havia ido embora e a deixou com os três filhos pequenos, sem qualquer ajuda. Embora achasse que a história dela fosse comovente, ela deu um papel com seu telefone e endereço, pedindo que qualquer ajuda fosse bem-vinda. Se despediu e foi embora. Ela, ainda insistente, disse por último: — Se tu passares o Natal na minha casa, vais ver que falo a verdade!
Guilherme ficou com esta situação na mente e se sentiu incomodado quando temperava sua carne para assar. Embora fosse o horário de quase fechar o mercado, pegou a carteira e lembrou do que aquela moça disse e, cheio de gente, começou a encher um carrinho de tudo que lembrava que sua mãe fazia e ainda pegou uns presentes na sessão de crianças.
Encheu o porta-malas do seu carro e colocou no GPS o endereço dado e, quando viu, chegou na casa. Uma casa simples, feita de madeira, com pouca iluminação na frente. Quando bateu na porta, logo uma menina com os olhos vibrantes veio abrir e gritou: — Mãe, tem um homem estranho aqui, com algumas sacolas!
Maria não acreditou quando viu que era o rapaz do mercado. Logo o convidou para entrar na sala, pediu para que os outros meninos fossem no carro e pegassem o resto dos presentes e mantimentos.
Da cozinha vinha um cheiro de comida simples, mas aquilo acessou a memória de quando sua mãe arrumava a casa na noite de Natal. A mesa estava posta, embora aquela família humilde estivesse feliz com o pouco que tinham naquela noite especial. Num canto da sala se via um presépio e uma árvore pequena, sem presentes embaixo.
E Guilherme foi logo avisando: — Dona Maria, tem uma ceia pronta que veio junto naquela caixa térmica. É só colocar na mesa e servir a senhora e seus filhos. Eu já estou indo. Um feliz Natal a todos!
Mas que imediatamente ela disse: — Não, tu és nosso convidado essa noite, vou colocar mais um prato e vais cear na nossa casa.
Foram momentos especiais: a alegria das crianças se alimentando, depois abrindo os presentes, a felicidade da mãe em vê-las tendo um bom Natal. Isso fez Guilherme não aguentar muito e cair no choro, mas com ar de felicidade por ter feito o que era certo. Se despediu, foi para sua casa com a alma leve de quem reencontrou algo que havia perdido desde o tempo da sua dor e sentiu que o espírito de Natal invadiu seu coração. Desde então, Guilherme nunca mais deixou aquela família desassistida, virou amigo, protetor e acompanhava cada passo rumo ao futuro daquelas crianças. Maria não tinha palavras para agradecer, só dizia: — Meu filho, tu foste um anjo bom que vi aquele dia no mercado! Nossa vida mudou desde aquele teu ato de generosidade. E não esquece a plantação que tu estás fazendo com meus filhos; Deus sempre te recompensará em dobro.
Mal ela sabia que isso já havia acontecido, ele não era mais aquele homem egoísta e amargurado; o fato de entender que havia dores maiores que as suas o fez, no fundo, curar o mais difícil que carregava: a ausência de sua mãe! E, nisto, o espírito de Natal nunca mais deixou a vida de Guilherme!

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