Quando a lembrança é boa, o tempo, a distância, nada no mundo apaga! Assim era a sensação de Isadora. Conheceu Luiz Henrique em um dos poucos bailes que frequentou em sua adolescência. O guri era meio xucro, um verdadeiro bicho do mato. Falava pouco, tinha poucos amigos e trabalhava na lida junto com os pais. Só tinha algo que destoava daquela vida mergulhada nas lidas rurais que o guri se transformava quando ia a um baile. Pouco ficava nas rodas de amigos; o negócio dele era tirar uma prenda e dançar pelo salão a noite toda.
A vida de Isadora não tinha nada que pudesse se aproximar daquele guri. Vivia a quilômetros de distância da propriedade dele. Estava planejando parar numa faculdade; seu sonho desde menina era ser agrônoma e o objetivo era voltar à propriedade dos pais e ajudar em tudo. E, junto a ter uma atividade fixa que os estudos lhe proporcionassem, sendo filha única, era possível herdeira de quadras de campo, era o que lhe reservava.
Certo dia, na semana farroupilha, tradição local, a maioria da região se concentrava nos piquetes, rondas e bailes. Algo diferente aconteceu na vida destes dois. Porque tanto a família de Isadora quanto a de Luiz Henrique não perdiam uma programação, mas, estranhamente, nunca se cruzaram, embora pertencessem àquela região.
Aquele baile foi diferente; a mesa da família de Isadora era na outra ponta do salão. A guria já tinha dançado várias músicas com o primo Luciano. E depois estava literalmente sentada só vendo os outros se divertirem naquele fandango. E, nisso, embora Isadora não tivesse reparado, ele já tinha cruzado os olhos nela quando rodopiava no salão com a Valquiria, uma guria que estava de namorico, nada muito sério. E, quando viu Isadora, uma guria sorridente, com flor no cabelo fixada numa trança lateral, de vestido bordô e mangas brancas, arrematado com um cinto preto em sua cintura. Ele perdeu o rumo até dos passos, a ponto de Valquiria reparar e dar uma bronca bem dada: – Tu esqueceste como é que se dança vaneira! É melhor a gente parar um pouco!
E foi que se desvencilhou da guria e, no resto do baile, só ficava perto, observando Isadora, com quem ela dançava, conversava e não achava coragem para tirar a guria para dançar. Quase no fim do baile, quando sentiu que a guria e seus pais iam pegar e ir para casa. Se aproximou de mansinho e falou de forma tão baixa que nem ela conseguia ouvir direito:
— Será que a guria me dá a honra de dançar esse chamamé com este peão?
Isadora ficou corada, a mãe incentivou com os olhos, o pai ficou com a cara meio amarrada, mas era feio desprezar pedidos assim e meio autorizou com a cabeça. A guria, meio sem jeito, foi para a pista com aquele total desconhecido. E foram quatro músicas seguidas, sem tempo de uma conversa; pareciam que se conheciam a vida toda. Quem os visse, eram namorados de muitos anos. E, quando a guria já estava cansada, pediu para pararem um pouco. Luiz Henrique, mesmo sem jeito, foi logo se apresentando. E, por fim, trocou umas palavras com a guria: “O meu é Luiz Henrique, moro a uns três quilômetros daqui.” Sou filho do Israel e da Maria, temos uma propriedade nesta região. Tu moras por aqui? Porque nunca te vi nesses bailes. Qual é teu nome?
Isadora, ainda meio envergonhada, se apresenta, diz que mora mais longe dali, uns dez quilômetros, que costumava ir aos bailes. Mas havia parado por um tempo. Ele convida-a para mais umas danças; o pai da guria já inquieto, olhando da mesa meio atravessado. Retoma para a mesa, entrega a guria, deixa seu contato e dali ele só observa ela saindo com os pais logo que está para acabar aquele baile.
Naquela noite, Luiz Henrique quase não dorme, tenta buscar nas redes sociais mais informações de Isadora, vê que ela foi prenda de um C.T.G. ali próximo, que participou de algumas atividades na comunidade. Passados mais de quinze dias, nada de mensagem, nenhum contato da guria, irritado consigo que somente deu seu número e não pediu o dela, pela cara feia do pai. Resolveu tomar coragem e pedir amizade dela nas redes sociais que pesquisou. A ansiedade só aumentava, um olho no serviço e outro no celular, vendo se ela aceitou. Dias se passaram e nada. Mas, como é que ele iria à propriedade dela? Seria muita afronta. Só dançaram umas músicas naquele baile. Já tinha cortado a lenha, uma tarde em que só faltou pendurar literalmente o cachorro na cerca. Ouvi um sinal sonoro e fui olhar: ela aceitou sua amizade no Facebook.
Ficaram literalmente longe um do outro por mais de quatro anos; a guria foi fazer sua faculdade de agronomia. Luiz Henrique acompanhava tudo o que ela fazia pelas redes. Desenvolveram uma amizade à distância. Mas sempre ficou a saudade daquele baile.
Bom, encurtando o papo, depois de anos tentando que a guria aceitasse seu pedido de namoro, amansando o candidato a sogro e conquistando a sogra, um dia ele volta àquele baile, agora definitivamente acompanhado de sua prenda.


