O vento

Colunistas Geral

Um domingo comum, que nada de interessante se poderia pensar em fazer. O dia amanheceu meio chuvoso, depois o sol deu o ar da sua graça. E, naquele clima preguiçoso, Clarice se viu envolvida, querendo muito que as horas não passassem, já que a semana prometia muitos afazeres, tanto no trabalho quanto em casa.
Quando pequena, a mãe dela pegava a menina dançando sozinha no pátio de casa. Ela tinha o costume de colher algumas flores e, no meio dos rodopios, ir atirando as flores ao vento.
Clarice ficava bom tempo entretida com aquilo, até que sua mãe dizia bem sério: — Deixa a filha brincar com o vento outro dia! Agora está na hora do banho!
Então o vento era um amigo, parceiro de conversas, brincadeiras com as quais Clarice se declinava a ficar entretida.
O tempo passou e, agora adulta, não tinha mais este costume de observar ou até se deixar envolver numa boa ventania. O estresse estava grande, quase insustentável de tantas atividades que tinha e prazos para cumprir. Vivia sozinha, numa casa bem confortável, que ficou de herança deixada por sua mãe. Não havia constituído sua família, inclusive já estava convicta de que seu destino não era partilhar a vida com ninguém. Já havia se acostumado com seu ritmo de vida, seja pessoal ou no seu trabalho e incluir um parceiro seria algo que talvez trouxesse uma desestrutura grande do jeito que achou seguro construir tanto seu presente como um futuro.
Clarice passou dos trinta, logo estava virando para os entas; tinha seus amigos, os familiares moravam em outra cidade.
Um hábito que preservou, mesmo trabalhando freneticamente de segunda a segunda, era caminhar num parque da cidade que ficava lá cerca de quarenta minutos, três vezes no mínimo por semana.
O semblante de Clarice fazia tempos era fechado, seus colegas de trabalho já haviam alertado que ela parecia triste, não tendo algo aparente que levasse a ter esse sentimento.
Mas, no fundo, ela sabia que faltava algo, que se sentia incomodada, embora tudo estivesse em ordem dentro da sua casa, como também no seu trabalho.
Foi que nesse domingo, depois de uma semana estafante, deixou de lado todas as suas pastas, entrou no chuveiro, tomou um bom banho, pegou suas roupas para caminhar e rumou ao parque.
Quando chegou no local, entrou na pista de costume, já determinada a cumprir seu tempo e retornar para casa mais aliviada de tudo que a atormentava a mente.
Quase no fim, mudou o clima, começou a soprar uma ventania, aquilo parecia fazer Clarice alçar voo. Foi quando se viu sorrindo, porque o vento remexia com seus cabelos. Aquilo a fez voltar ao passado, inclusive ao pátio da casa onde mora e lembrando como sua mãe falava com ela.
Era o que precisava para descarregar toneladas não vistas de estresse e compromissos do seu trabalho. Lembrou que era seu maior amigo: o vento. Que, no fundo, ele fazia-a se sentir mais livre e melhor, trazia sorriso aos seus lábios.

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