Essa ilha era localizada a cerca de uma hora da Vila de São Mateus. Um local escondido, que tinha poucas pessoas morando naquele vilarejo, local de pescadores, que viviam da pesca e artesanato. Muitos anos antes de ser conhecida como Ilha do Mel, um casal recém-casado: Heitor e Marta, foi passar os primeiros dias de casados no vilarejo, por indicação de amigos. Foram quinze dias explorando o lugar; ficaram hospedados numa casa de família, um quarto de frente para o mar e diante enxergavam a ilha. Heitor disse para Marta um dia, em tom de brincadeira, quando acenderam uma fogueira na beira do mar:
— Eu ainda compro ela para ti! E Marta respondeu: — Está louco! Onde tu vais ter dinheiro para comprar uma ilha? E ele responde: — Isso é só um sonho!
Dito e feito, passaram-se os anos, Heitor, agora com seus 83 anos, era o proprietário daquele pequeno pedaço de chão cercado de água. Ali construiu uma casa imponente, cheia de detalhes e memórias. Havia oito quartos, sendo ainda outro principal; com o tempo, passou a alugar para pessoas passarem temporadas de veraneio. E as pessoas começaram a chamar o local de Ilha do Mel. Os quartos tinham nomes estranhos, que com o tempo foram nomeados porque achava mais pessoal que designar numericamente.
O quarto dos sonhos era em tom azul, decoração simples, mas tinha coisas que buscavam o hóspede a querer realizar algo que ainda não fizera, como se fosse um desafio pessoal a ser superado. O quarto do entardecer em tons de amarelo, uma vivacidade e alegria que poderiam estar perdidas frente aos desafios da vida. O quarto da libertação era em tons de verde e a decoração era com elementos de coragem, incentivo a soltar coisas que talvez o hóspede estivesse preso, cercado de muitos livros e frases que instigam a refletir sobre o poder do livre-arbítrio. O quarto da redenção era com tons em lilás, cheio de relicários, mensagens singelas que eram lidas pelo hóspede e proporcionava este desapego de alguma dor profunda ainda não superada. O quarto das memórias, o tom era pastel, com muitas fotos, momentos pessoais do dono da casa e sua esposa, mostrava a importância de recordações e vivências para ir escrevendo nossa história. O quarto do luar, em tons de cinza, passava imagem de uma paz profunda que só com noites bem dormidas alguém pode acessar; quando vive em ambientes instáveis, é difícil ter essa mesma sensação de aconchego pleno. O quarto da mudança era em tons de laranja claro; este trazia coisas que instigavam ao hóspede refletir em atitudes, jeitos e temperamentos que pudessem estar influenciando de forma errada seu rumo na vida. O quarto do recomeço, em tons vermelho e branco, que tinha elementos que inspiravam a renovar a vida com novas perspectivas.
E por fim o mais curioso e talvez enigmático de todos, também o mais concorrido em reservas e que talvez surpreendesse todo o hóspede que ali se abrigava: o quarto da sabedoria, que era para ser o mais luxuoso, cheio de detalhes e elementos vistos. E para quem ali ficava era o mais simples, todo branco, apenas com a cama, cobertas e sem nada decorativo. Contemplando por fim que no esvaziamento de tudo que acumulamos, talvez venha de fato a verdade da arte de vivência.
A Ilha do Mel tinha seus mistérios, assim como alguns eram revelados pela história de vida do seu dono, então, ninguém no fundo era hóspede por acaso e nem saía daquele local sem ser tocado de certa forma.


