Maria estava passando na calçada e algo fez ela voltar: um fusca azul claro, ano 1979, que estava à venda na frente de uma revendedora de carros.
O carro parecia estar em bom estado de conservação. Olhou por fora, os estofados estavam intactos. Não havia preço. E tomou coragem e foi falar com um dos vendedores.
Maria havia confessado numa roda de amigos que seu sonho de consumo um dia era ter um carro e nada de modelos novos. Era apaixonada por carros antigos.
E quando começou a aprender a dirigir, o primeiro carro que sua família colocou à disposição era um fusca, só que a cor era preta. Maria levou alguns meses praticando com a tia Fernanda, que era mais paciente em ensinar a dirigir. O seu pai, Flávio, logo em seguida vendeu o carro e comprou um modelo maior, um Opala Comodoro ano 1980.
E não era a mesma coisa que dirigir um Fusca. O tempo passou, Maria se casou, o marido comprou para eles um carro do ano. E, anos depois, se separaram, não restando esse na partilha. Maria preferiu ficar com a casa.
Então, desde o divórcio, se deslocava mais com ônibus urbano, táxi e ainda veículos de aplicativos. E o sonho de ter o carro próprio foi colocado na gaveta.
Mas, agora parecia que isso iria se tornar realidade. Quando perguntou o preço, achou meio salgado. Ligou para seu pai ir à revenda. E logo o vendedor deu as chaves para ela dar uma volta, disse que tinha que dar alguns pequenos retoques na lataria. Frisou que, no geral, o carro estava bom de motor e por dentro os estofamentos impecáveis, os pneus, inclusive o estepe, eram novos.
Sabe uma viagem no túnel do tempo quando aprendeu a dirigir no Fusca da família?
Agora, ela, novamente naquele modelo e cor que só tinha nos seus sonhos, passou a dar voltas em sua cidade com o Fusca e por fim o negócio foi concretizado.
Passado o tempo, Maria vai para seu trabalho a bordo de seu Fusca azul modelo 1979, todo revisado e em estado praticamente de quando saiu da fábrica. Só o que destoa é o alarme antifurto que seu pai obrigou-a a instalar para dar maior segurança e o veículo não ser furtado.
Nas festas de família, a atração é o carro, quase ninguém mais pergunta do seu divórcio. Mas quando alguém quer especular mais a sua vida e esse tipo de questionamento aparece, Maria logo responde: – Hoje estou casada com meu Fusca! Esse nem separação de fato aceito! Vai ser assim, casada com ele, até que a morte nos separe!


