Fogão a lenha

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Joaquim adorava aquele tempo em que se dedicava ao seu fogão a lenha. Casado com Isolda, fazia uns trinta anos. O casal optou por morar num casarão.
A decoração era toda rústica e, claro, o fogão a lenha era destaque naquela imensa cozinha. No verão, ele não era tão utilizado, embora Joaquim, volta e meia, desobedecesse à ordem normal e fizesse seu fogo. Para depois sentar próximo, enquanto o feijão cozinhava lentamente.
Ele foi criado vendo seu avô João Pedro na propriedade da família, mas aí num fogão a lenha, aquele de chapa, que coloca pinhão para tostar e assar batata-doce no forno. E, quando sua avó Diná menos esperava, fazia um pão caseiro recheado de torresmo, que todos da família consumiam com um café passado fresquinho.
Então, o fogão a lenha, independente do formato, mais rústico como na casa do seu avô, como agora no seu casarão, que destoava um pouco da cozinha moderna que Isolda escolhera, era o ponto principal que aquecia aquela família.
O casal não teve filhos, eram somente os dois. Mas, como a vida tem suas compensações, o irmão de Joaquim teve uma família numerosa, quatro filhos, três guris: Sérgio, Manoel e Josué e uma guria: Bibiana. Sendo que Josué e Bibiana eram afilhados de Joaquim e Isolda.
Todos os sobrinhos vinham quando pequenos para a casa dos tios e adoravam aquela atmosfera rural, mesmo se localizando no centro urbano. Sendo que, no quintal dos fundos dos tios Joaquim e Isolda, tinha pés de bergamota, laranja, pitangueira e um limoeiro, além de uma horta bem cuidada pelo casal.
As temporadas preferidas dos sobrinhos e afilhados eram no inverno, ficavam uns sete dias nas férias. Era normal o tio Joaquim cozinhar lentamente no fogão a lenha, um carreteiro, uma sopa a capricho. Mas o ponto alto era uma sopa de mocotó, que a tia colhia salsa e cebolinha e servia os pratos fundos pelando de quente.
E ali, com os rostos corados aquecidos pelo fogo do fogão a lenha, o tio passava até mais tarde contando histórias da família. Até que os sobrinhos quase dormiam à beira do fogo, em cadeiras forradas por pelegos, e a tia Isolda só vinha e colocava cobertas.
E dizia: – Deixa eles aí, Joaquim! Estão dormindo tranquilos. Amanhã, eles vão para os quartos.
Aquele carinho todo dos tios era quase motivo de muito ciúme dos pais deles: Virgínia e José. Quando iam buscá-los, viam na expressão de alegria dos filhos com Joaquim e Isolda, eram especiais demais para eles.
Para resolver a situação e deixar a família unida, Isolda convidava seus cunhados e sobrinhos para almoçarem uma vez por mês na sua casa. Aqueles domingos, a mesa se tornava pequena. O fogão a lenha era utilizado mais uma vez e o que se via eram os irmãos Joaquim e José comandando a cozinha. Ficando somente a parte das sobremesas para Virgínia e Isolda.
O tempo passou, os sobrinhos cresceram, aquelas férias já não faziam mais parte dos hábitos familiares, cada um seguiu seu rumo. O almoço na casa dos tios não era mais tradição. Ainda o fogão a lenha era utilizado pelos tios Joaquim e Isolda e aquela casa parecia maior. Tinha o calor do fogo, mas faltavam as conversas, as risadas e mais união daquela família. Não se tinha mais o principal: o calor humano!

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