Depois de 15 anos de pesquisas, investimentos, disputas judiciais e debates ambientais, a mina de fosfato de Lavras do Sul recebeu a licença de operação da Fepam e se aproxima do início efetivo da produção. A liberação representa um movimento estratégico para o agronegócio brasileiro em um momento no qual o país ainda depende fortemente de fertilizantes importados. Com o avanço do Projeto Fosfato Três Estradas, o Rio Grande do Sul passa a integrar um dos principais esforços nacionais para ampliar a oferta interna de insumos agrícolas e reduzir a vulnerabilidade do setor diante das oscilações internacionais de oferta e preço.
O Projeto Fosfato Três Estradas, da Águia Fertilizantes, prevê produção anual de até 300 mil toneladas de fosfato natural, volume equivalente a cerca de 15% da demanda gaúcha pelo insumo, segundo informações divulgadas pela própria empresa.
O empreendimento recebeu investimentos superiores a R$ 180 milhões desde o início das pesquisas minerais, iniciadas há cerca de 15 anos. A expectativa da empresa é ampliar a operação para até 400 mil toneladas anuais nos próximos anos, somando as estruturas de Lavras do Sul e Caçapava do Sul.
Além do impacto econômico, o projeto também deverá ampliar a geração de empregos na região. Segundo informações divulgadas pela companhia, cerca de 50 postos de trabalho já foram criados durante as etapas de engenharia, licenciamento e implantação da operação. Outros 40 empregos diretos deverão ser abertos na unidade industrial utilizada em Caçapava do Sul para beneficiamento do minério.
A importância econômica do projeto ganhou ainda mais relevância após a guerra na Ucrânia e as sucessivas crises internacionais de logística e abastecimento. O Brasil figura entre os maiores consumidores de fertilizantes do mundo e segue dependente da importação de parte significativa do fosfato utilizado pela agricultura. Dados do setor indicam que aproximadamente 59% do fosfato consumido no país ainda vem do exterior.
A licença emitida pela Fepam autoriza a Águia Fertilizantes S/A a operar a lavra de fosfato a céu aberto com recuperação de área degradada no distrito de Três Estradas, em Lavras do Sul. O documento possui validade até maio de 2031.
A operação autorizada envolve uma área útil de 57,67 hectares. A área inicial liberada para extração soma 33,5 hectares, enquanto a planta definitiva de beneficiamento ainda será implantada em etapa posterior. Neste primeiro momento, o minério deverá ser transportado até Caçapava do Sul para processamento industrial.
A empresa alugou a estrutura industrial da Dagoberto Barcellos em Caçapava do Sul para iniciar o beneficiamento do produto enquanto prepara a construção da planta definitiva em Lavras do Sul.
O fosfato produzido no empreendimento será comercializado com o nome Pampafós. O produto é tratado pela companhia como fertilizante natural de aplicação direta, sem processamento químico, voltado principalmente ao mercado agrícola do Sul do país.
Segundo o gerente de projetos da Águia Fertilizantes, Diego Boeira, o produto representará redução de custos para produtores rurais em comparação ao fosfato químico tradicional utilizado nas fórmulas NPK. A economia final dependerá das análises de solo e da necessidade de complementação com nitrogênio e potássio.
A empresa afirma que o fertilizante natural possui cerca de 12% de fosfato, além de cálcio, magnésio e micronutrientes considerados importantes para a recuperação e manutenção da qualidade do solo.
Os testes agronômicos começaram em 2019 em diferentes tipos de solo do Rio Grande do Sul, envolvendo culturas como soja, milho, trigo, arroz e pastagens. Conforme dados apresentados pela empresa, os melhores resultados apareceram nas lavouras de soja, com desempenho próximo ao obtido com fertilizantes fosfatados convencionais.
A licença ambiental estabelece uma série de condicionantes técnicas e ambientais. Entre elas estão monitoramento permanente da fauna, controle de poeira, ruído e vibrações, recuperação de áreas degradadas, proteção de áreas de preservação permanente, programas de conservação ambiental, drenagem das estruturas de mineração e auditorias ambientais periódicas.
A lavra será feita a céu aberto, com desmonte mecânico e uso eventual de explosivos dentro das regras previstas pela licença. O transporte do minério ocorrerá exclusivamente por caminhões rodoviários.
O projeto enfrentou anos de debates ambientais, ações judiciais e questionamentos de grupos contrários à mineração no bioma Pampa antes da liberação definitiva da operação. Em 2024, a Justiça Federal manteve a validade do licenciamento ambiental do empreendimento, permitindo a retomada do cronograma operacional da companhia.
Com a emissão da licença de operação, a empresa fica oficialmente autorizada a iniciar uma das etapas mais aguardadas do projeto mineral considerado estratégico para o abastecimento de fertilizantes no Sul do Brasil.
@felipevieirajornalista


