Pensa numa mulher arisca! Mas, pensa direito. Ester era uma mulher com personalidade introvertida e que não gostava de um monte de gente perto, a filha menor de Seu Venâncio foi criada com muito mimo. Podia fazer e escolher o que queria, e a mãe Augusta passava trabalho com aquela guria. As duas irmãs mais velhas, Áurea e Vitória, participavam dos bailes do CTG e foram devidamente apresentadas à sociedade gaúcha e seus costumes. Mas estava chegando a idade em que a família tinha aquela tradição, a mãe já marcando costureira, fazendo orçamento do quanto custaria o baile da prenda jovem de Ester e para falar com jeito com Venâncio. Argumentando ao marido que, se concordasse, este gasto era algo importante na vida da guria. Ester, que era o pior obstáculo, não queria saber de seguir as tradições e empacou, dizendo para a mãe que preferia que pagasse uma viagem para conhecer a Argentina a ir se apresentar num baile. A mãe paciente tentava convencer a filha de que era algo de tradição familiar. A filha dizia que ninguém iria mudar ela de ideia. E o assunto ficou encerrado por um tempo, para se voltar à paz naquela família.
Um dia, à tardinha, tomando seu mate de costume e fazendo-se de que nada sabia, Venâncio convida a filha para sentarem perto do fogo da lareira, para jogar pife e ver o tempo passar.
No meio da prosa, ele indaga a filha: — Ester, tuas irmãs já tiveram seus bailes no CTG. E filha, está chegando o tempo do pai pagar o teu! Tenho que vender uns bichos lá fora e ver se a tua mãe não inventa tanta moda desta vez. Que o baile da Vitória custou quase duas vezes o da Áurea!
E a filha, já vendo a situação meio sem jeito, fala ao pai: — É que eu não queria baile, pai, não é meu estilo de vida!
O pai insiste: — Mas, filha, tu sabes que tua mãe vai ficar chateada. Pensa bem, depois, lá adiante, não quero que tu me cobres que gastei com as gurias e contigo fui mão de vaca.
Terminado o chimarrão, o fogo quase apagado da lareira, a partida de pife, Ester ganhou de lavada do pai. A aposta que fizeram foi de palitos de fósforo. Ela então quase encheu o bolso, ficando quase com sua caixa cheia.
E o assunto novamente de baile se silenciou naquela casa. Belo dia, Ester, cheia de si, resolve dar uma limpada nas gavetas de casa. Ela era apaixonada por fotos antigas, não podia ver uma exposição que logo ia, sem pensar muito. Já tinha dito que, num futuro próximo, essa seria a sua profissão: fotógrafa.
E se depara com uma caixa fechada, meio empoeirada e atada com uma fita de cetim. Ela resolve abrir e fica um tempão olhando detalhadamente cada foto. Ali tinha fotos de sua bisa, que, por sinal, seus pais já tinham dito que colocaram o nome, junto com o biso. Diziam nas histórias de famílias que a Bisa Ester era de personalidade duríssima e o Biso Antônio mais obedecia, que tinha voz e voto naquela casa. Mas, nas fotos vistas, eles pareciam muito felizes e apaixonados; isso também era confirmado nos assuntos da família. E, em um dos álbuns, em especial, aparecia um grande baile. Com uma caligrafia linda, ela para alguns minutos lendo algo que foi escrito pela Bisa:
“Uma noite inesquecível, estava nervosa nesse dia. Minha mãe insistiu tanto que cedi seu pedido. Jamais esquecerei este momento. Tremor nas pernas e meu pai me segurando pela mão para desfilar no meu primeiro baile. O vestido foi bordado à mão pela minha mãe. Escolhi, diferente de todas as gurias, a cor verde, nos detalhes e, na maior parte, um tecido fino branco. Com a saia pesada, lembro que quase derrubei meu par, que hoje é meu marido. Foi bom guardar essa foto na caixa; o tempo passou e o olhar de esperança de guria que tinha se rendeu naquele baile. Que no futuro minhas netas e as netas delas saibam o quanto é importante isso na minha família. Assinado Ester Maria.”
Os olhos da bisneta Ester encheram d’água. Saiu dali, fechando aquela caixa cheia de memórias, só levando uma pequena amostra: a foto da bisa em seu primeiro baile.
Naquele dia, ela estava ansiosa porque não via a hora da mãe chegar em casa. Ela está atolada de compras do mercado. E foi logo dizendo: — Mãe, mudei de ideia. E a mãe responde: — O que foi agora, Ester?
— Quero que tu faças meu baile! Só tem uma exigência: meu vestido vai ser igualzinho a esse! E ela mostra a foto.
Dois meses adiante, Ester é conduzida pelo pai, Venâncio, apresentando a terceira filha no seu baile. A conta ainda estava mais salgada que um charque apurado num sal mal batido. Mas, vendo a alegria da filha e a emoção da esposa, sabia que estavam conduzindo suas meninas numa tradição de suas famílias. Ester, depois daquele baile, voltou à caixa com fita de cetim, depositou a foto da bisa e pediu para sua mãe uma sua, que colocou na sala de casa. Nas memórias de sua bisa, viu no fundo que queria ter o seu baile. Inclusive, para no futuro ter talvez uma filha sua, quando visse seu álbum de fotos, quisesse também ter a emoção do seu primeiro baile.


