Dois homens, hábitos distintos de trabalhar num mesmo setor, competentes, obstinados, antenados.
Raul, um sujeito quieto, compenetrado, de poucos amigos, trabalha naquela edição da revista há mais de 10 anos. Tinha um hábito estranho e nada contemporâneo, suas matérias eram feitas na máquina de escrever Olivetti Underwood 298, que foi do seu pai, também escritor. Era inflexível quanto à muita modernidade junto às suas ferramentas para escrita.
Silvio, falante, amigo de quase todo mundo, dava toques para todos da redação sobre os melhores programas, formas e jeitos de editar as matérias, um aficionado pela IA (inteligência artificial). Falava que: “Na era em que vivemos, só loucos ainda vivem no tempo da pedra polida e lascada, usando instrumentos manuais para escrever textos”. Uma crítica indireta ao estilo de escrita do colega de trabalho. Na sua arrogância, o pulo do gato somente era aliado à tecnologia e, para ele, a IA era algo indispensável e revolucionário.
De certa forma, tinha razão, mas como toda história tem dois lados, os extremos podem conter muitos erros de constatação. Numa roda de conversa, em que o pessoal parava para tomar um café, Silvio rebatia e justificava a Raul por que o uso de IA era crucial para otimizar o tempo, inclusive ir a fundo em certos assuntos. Raul, mais ponderado, justificava a Silvio o porquê de não gostar do excesso de tecnologia em seus escritos, que achava que tirava sua autenticidade e verdade.
Passado um tempo, os dois seguindo rumos diferentes para trazer suas matérias, o chefe da redação convoca Raul e Silvio para uma reunião e propõe uma matéria em conjunto com uma pauta desafiadora: O que a IA ajuda no tempo e pesquisa, facilitando o trabalho. E, o que estilo de trabalho somente com recurso de máquina de escrever deixa mais autêntico seus escritos. Queria, no fundo, que os dois aparassem as arestas e vissem o que de bom e ruim cada jeito traz de escrever nos seus textos. E, por fim, decretou que nesta próxima edição Raul traria um texto em que utilizaria IA e Silvio teria que fazer sua matéria utilizando somente sua inspiração e a boa e velha máquina de escrever.
Aquilo se tornou um embate forte, ambos voltaram indignados, não eram seus jeitos de escrita. Resumo: as matérias foram um desastre. Raul não gostou de usar IA e Silvio não sabia datilografar na máquina de escrever e nem conectar pensamentos sem a ajuda da inteligência artificial que tanto utilizava em seus escritos. Chegaram para o Chefe sem fechar suas pautas e este, vendo a situação, pontuou: — Vocês virão? E este complementou:
— Cada um de vocês é único na forma como escreve, seja com o auxílio da máquina de escrever ou com o uso da IA. Não existe comparação, nem competição, apenas formas diferentes de expressão. Façam um favor a partir de agora, não briguem mais por causa disso e sigam trabalhando. Aqui é uma equipe, não uma arena. Se for para digladiarem, que seja no campo das ideias!
Seguiram os dois sem muita amizade, apenas melhorou o respeito profissional, Raul sempre utilizando sua máquina de escrever e Silvio cada vez mais fascinado pela IA. Para o Chefe, aquilo já foi um grande progresso dentro daquela redação!


