Francisca era apaixonada por chimarrão. Acordar e tomar mate era sua primeira bebida, o café ficava em segundo lugar. Na sua cozinha havia um armário que era ocupado só por elas: suas cuias de chimarrão.
Mas uma em especial tinha história. Essa cuia, junto com outra igual, ela havia comprado numa de suas viagens ao Uruguai. Tinha ido sozinha e, para retribuir um presente que ele lhe dera antes, lembrou que cuia era algo especial.
E assim, quando retornou, colocou-a numa caixa e despachou pelos Correios para o endereço do homem em outra cidade.
O cidadão, quando a recebeu junto com o bilhete, logo mandou mensagem mostrando o presente e rendendo agradecimentos com erva-cevada enquanto tomava seu chimarrão.
A situação parou por aí. Os destinos nunca mais se cruzaram. Francisca, sem saber, fazia seu mate enquanto lembrava do fato e, a quilômetros de distância, Otávio fazia o mesmo.
Dez anos se passaram e muitas coisas aconteceram na vida dos dois: uma delas foi que ele havia se casado e ficado viúvo. Já ela estava separada fazia uns dois anos. E novamente houve um encontro não programado.
O tempo agiu na sua velocidade. Estavam de semblantes mais maduros, quase não se reconheciam, mas, só quando os olhares dos dois realmente se cruzaram, ambos se reconheceram e o sorriso ficou estampado naqueles rostos.
A conversa que inicialmente parecia curta ficou longa, e surgiu no meio dos assuntos a bendita cuia enviada. Francisca crendo que, pelo estilo de vida de Otávio, aquele objeto já teria sido descartado. Mas ele confidenciou algo:
— Todo sábado à tardinha, sabe, Francisca, tenho outras, mas aquela cuia é minha companheira. E mateio nela até o sol se pôr. Se é dia de chuva, é a mesma coisa. Isso desde que tu me enviaste ela para casa. Sabe, tem presentes dados com imenso carinho que a gente não esquece jamais. E quando tu me enviaste aquele objeto, foi um dia especial pra mim, isso reacendeu o espírito adormecido de quem eu realmente era como: gaúcho, homem e minha ligação com a nossa tradição. E no dia em que tu quiseres, vamos tomar um mate juntos, aquela cuia está lá em casa te esperando!
Bom, a história desta cuia gerou um reencontro de almas perdidas pelo mundo que se reaproximaram. E seis meses após aquela longa conversa, agora era Otávio, num final de tarde de sábado, tomando mate e passando a sua cuia para as mãos de Francisca.
No fundo, aquele mate não ocorreu no tempo que os dois queriam, e sim quando o destino reuniu Francisca e Otávio novamente para viverem o que ambos sentiam e que ficou adormecido por mais de uma década.


